Como a Casa do Zezinho virou um exemplo
6 semanas atrás | ciee_gabriella.goncalves@promon.com.br
A Casa do Zezinho está localizada entre três bairros da zona Sul de São Paulo: Capão Redondo, Jardim Ângela e Jardim São Luís. Esses três distritos da Zona Sul estão entre os mais violentos de São Paulo. Acomodam 828 mil habitantes e mais de 260 favelas. Ali, a renda per capita é a metade da média registrada na cidade. E a proporção de analfabetos é 50% maior. Em meio a essa exclusão social, com pouco investimento do Estado e bastante apoio financeiro de empresas privadas e cidadãos comuns, que a Casa do Zezinho prosperou e virou referência.
Dagmar Rivieri Garroux, de 55 anos fundou a Casa do Zezinho em 1994. Junto com o marido, Saulo Garroux, começou a educar uma dúzia de crianças e jovens em 100 metros quadrados, num imóvel comprado para viver com a família. Nesses 15 anos, a ONG se multiplicou. Surgiram paredes coloridas, piscina, quadras de esportes, biblioteca, salas de aula. Atualmente, 1.200 “Zezinhos” desfrutam 4.000 metros quadrados de atividades como oficinas de arte, gastronomia e informática, reforço escolar, inglês, esporte, vídeo, foto e debates sobre sexualidade e o mercado de trabalho.
O nome Zezinho é uma referência ao poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade – “E agora, José?”, o primeiro verso, caiu na linguagem popular como sinônimo de situação sem saída. O método criado por Tia Dag e sua equipe, é o desenvolvimento da autonomia de pensamento a partir de quatro pilares da educação: ser (espiritualidade), conhecer (ciências), saber (filosofia) e fazer (arte), a chamada “Pedagogia do Arco-Íris”. Ao entrar na Casa do Zezinho, os alunos começam a percorrer um caminho representado pelas sete cores do arco-íris. As crianças de 6 a 8 anos começam pela Sala das Violetas. Com o avançar da idade e a evolução do aprendizado, mudam de cor. Até chegar à Sala Coração de Estudante (vermelha), destinada aos jovens de 16 a 21 anos. Familiares não ficam de fora. Participam de cursos como informática, bordado, pintura, cabeleireiro e costura.
Kaique de Jesus Santos, 15 anos é aluno da ONG desde os oito anos. Lá teve a oportunidade de mostrar seu talento como ator no filme “Linha de passes” interpretando Reginaldo, o filho mais novo da personagem de Sandra Coverloni, que sonha conhecer o pai. “Antes eu não achava que tinha essa capacidade. Agora penso em ser alguém na vida, reconhecido. Mas não quero ser muito famoso. Só um pouco.” Kaique acredita ter ficado mais maduro graças aos educadores de Tia Dag. “Eu era irresponsável, brigão, nervoso. Na escola, não deixam a gente explicar nada e vão logo chamando os pais. Na Casa do Zezinho, é diferente. Se a gente tem problema, eles dão conselhos, conversam.”
Crianças chegam à Casa do Zezinho ignorando a própria identidade. Gigio só descobriu o verdadeiro nome na 1ª série, aos 7 anos. “Professora, a senhora não chamou meu nome.” “Gigio” era Francisco Cardoso do Carmo. Cresceu não gostando de Francisco. Tornou-se um Zezinho e, mais tarde, professor de capoeira dos Zezinhos – o professor Gigio. Agora vive feliz. Paga o próprio aluguel e a faculdade de educação física. Tia Dag diz já ter sepultado uns 20 Zezinhos e ex-Zezinhos que andavam fora da lei.
Assim como Gigio, 60% dos funcionários da Casa são ex-Zezinhos. Os outros 40% tiveram de tomar um choque de realidade antes de ser aprovados na seleção de Tia Dag. Foi o caso da psicopedagoga Ana Beatriz. Ela começou como voluntária aos 15 anos. Aos 18, foi convidada a se tornar funcionária. Tia Dag chamou alguns Zezinhos e pediu que a levassem para conhecer suas casas. Junto com as crianças, Ana Beatriz passou por um buraco aberto numa cerca. Caminhou por becos onde havia gente vendendo e consumindo drogas. Atravessou em pânico uma frágil ponte de madeira sobre um córrego. No barraco de um dos Zezinhos, viu duas pessoas com tuberculose dividindo uma cama e um recém-nascido dormindo sobre uma espuma no chão. Os enfermos não eram da família. “Minha vó viu que eles estavam doentes e botou pra dentro”, disse uma das crianças. Esse é o mundo dos Zezinhos. “Vamos inaugurar a Casinha do Zezinho em junho, para umas 500 crianças de 3 a 6 anos”, afirma Tia Dag. “Ainda quero montar um laboratório de ciências. É preciso incentivar a pesquisa. Nunca paro de sonhar.”
Fonte: revistaepoca.globo.com.br





